17 de Fevereiro de 2017

Depois de muito tempo, o homens e mulheres de boa vontade, conselheiros e juízes de redes sociais, estão em greve ou amotinados nos quartéis da omissão e da hipocrisia.

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Permitam-me nesta reflexão dominical tocar temas que são caros e polêmicos à sociedade brasileira que vive um momento ímpar em sua juventude democrática. Atrevo-me a remarcar este sujeito por causa das leituras religiosas de uma sociedade cada vez mais permeada de “instituições cristãs”, mas que na verdade vive uma crise ética e esta, é um sacramento que revela que estamos longe, e bem longe de ser uma sociedade orientada pelos princípios evangélicos. Enquanto os templos sobram, os testemunhos minguam.

Vivo no Corno da África, trabalhando com povos que experimentam diariamente as dores das violências, sobretudo as vergonhosas guerras e as intermináveis crises humanitárias que permitem ainda hoje que um ser humano morra de fome. Confesso que não é fácil lidar com tudo isso, principalmente se acostumar a viver em meio a militares altamente armados, escutando noite e dias os aviões de guerra que nos sobrevoam, e acolher em nossos centros humanitários aqueles que diariamente chegam com um grito de socorro.

Porém, ao saber pelos meios de comunicação, sobre a crise carcerária que gerou a morte de muitos, fiquei mais inquieto com as decapitações, sobretudo em me reconhecer no idioma e na fisionomia daqueles que cometeram tal crime. O Brasil vive uma guerra velada que mata muito mais que guerras reveladas. As decapitações revelam a que ponto chegamos, “as pequenas violências” alimentadas também em nossos comentários nas redes sociais, expressam a crise ética de um país que encanta com sua “pluralidade religiosa”.

Vós ouvistes o que foi dito:
‘Olho por olho e dente por dente!’
Eu, porém, vos digo:
Não enfrenteis quem é malvado!
Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face
direita, oferece-lhe também a esquerda!

Em meu estado natal, o Espírito Santo, acompanhei também em silêncio as atrocidades geradas pela crise na segurança pública, mais ainda nas redes sociais, que são um bom termômetro para sentir a temperatura da sociedade. O estado governado pela velha aristocracia capixaba revelou sua incapacidade de administrar a coisa pública causando um caos histórico para alguns, e “mais um dia”, para aqueles que vivem cotidianamente com a violência urbana. Porém, agora a elite também estava em perigo, indefesa diante daqueles que são vistos como inimigos: pobres e favelados. O que os criminosos fizeram nestes dias da greve da polícia, ou manifestação de familiares, não é nada diante das mortes impostas por este governo que revela o que a direita tem de melhor, basta olhar a saúde pública no estado, quantas pessoas foram assassinadas por este governo. Enquanto isso, os altos salários das cúpulas do executivo, legislativo, judiciário e ministério público, não sofrem alguma restrição, a austeridade é para os “paus mandados”. As famílias dos militares conhecem bem estas dores. Amotinados ou grevistas, não importa o termo, a polícia militar negou-se a si mesmo a sua missão mais cara: proteger e salvar. A sociedade preferiu ser juíza, ora do lado governo, ora do lado dos militares. Porém, os saques revelaram outra face, a “metástase” do câncer chamado corrupção alastrou-se assustadoramente. Na verdade, quem não surpreendeu foram os criminosos, eles não se amotinaram, nem fizeram greve.

Depois de muito tempo, o homens e mulheres de boa vontade, conselheiros e juízes de redes sociais, estão em greve ou amotinados nos quartéis da omissão e da hipocrisia. Fizemos a catequese mas esquecemos os caminhos das bem aventuranças, construímos templos, mas não uma sociedade baseada nos valores do reino. Qual bairro-comunidade-ocupação no Espirito Santo foi fundado sem a presença de um templo religioso? Nenhuma! Somos extremamente religiosos, mas incapazes de vivermos o sacramento do amor.

O nome de Deus está em todos os lados, seja naqueles que fazem um culto em meios aos decapitados, seja na oração daqueles que paralisaram o serviço de segurança pública, seja na oração da mãe que sepulta seu filho morto nestes dias de crise, seja na boca dos governantes. Líderes religiosos clamam à oração, porém, crise ética se resolve com educação mística, com formação humana e principalmente com a refundação da sociedade, profundamente religiosa, porém, que está distante de Deus.

Uma vez, em uma cidade aqui no norte da Somália, alguém me disse: “Padre, é preciso alugar carro blindado para sua segurança”, porém eu pensei, carro blindado me blinda das pessoas, e missionário sem contato, é missionário do vazio. Passei dias incríveis, seja caminhando, seja nos ônibus, onde as pessoas olhavam “espantadas”, mas com um sorriso e acolhida. Valores do Reino se transmitem nos encontros reais.

Segurança pública não deveria ser prioridade da polícia e sim de cada família, constituída sobre a base do amor. Tive a oportunidade de encontrar pessoas que não creem em Deus que construíram famílias extraordinárias, ofereceram filhos da paz ao mundo. Mas, conheço também, famílias que não saem da Igreja que ofereceram filhos da guerra ao mundo.

O Brasil está mergulhado numa crise de valores, onde a corrupção se tornou cultural, infelizmente. Lava jato sem faxina minuciosa existencial não vai resolver o problema ético do país. Idolatrizarão de heróis nacionais expressam a mediocridade dos atores que somos todos nós.

Outro problema: a “ridicularização” do Evangelho. Líderes religiosos: católicos e evangélicos, seja por ingenuidade ou por ganância interesseira, desejam transformar a república em conselho pastoral, esquecem-se da missão de ser tempero e luz, para serem “o essencial” e a “estrela que mais brilha”. Sejamos pastores com cheiro de ovelhas, como diz Francisco.

Durante a ditadura militar os movimentos religiosos foram martirizados na busca pela vida do povo, hoje, encontramos nada mais que cabos eleitorais, desiquilibrados entre direita e esquerda, enviando os comunistas ao inferno e neste exato momento, canonizando os maçons. Preocupam-se com a imagem de Aparecida no carnaval e esquecem-se das muitas Marias profanadas em suas dignidades nas avenidas da vida.

Pois ele te perdoa toda culpa,*
e cura toda a tua enfermidade;
da sepultura ele salva a tua vida*
e te cerca de carinho e compaixão.

Constrói-se uma sociedade com sonho ético, próprio de cada ser humano, a fraternidade universal está presente no dna. A mesma deve ser temperada com os valores espirituais, presente nas diversas tradições, sem se esquecer da mística indígena presente depois de sempre nesta terra.

Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo.
Não tenhas no coração ódio contra teu irmão.

Aqueles que abraçaram o cristianismo, não somente por tradição, mas por vocação, convido-os a repensar o “ser cristão”, sem se deixar levar pelos radicalismos e pelas respostas prontas. Convido-os a jogar no lixo a “teologia da prosperidade” e o “curandeirismo barato” e assim, abraçar o essencial do Evangelho. Aos de cristãos de extrema direita e de extrema esquerda, voltem à centralidade do evangelho, pois ambos fazem muito mal ao Reino nos dias de hoje.

Aos que rezam dentro dos muros das próprias necessidades, peguem a marreta da missão, façam cair as cercar e fronteiras e vençam os medos na experiência mais sublime do cristianismo: Encontrar e abraçar o Cristo no inimigo!

Uma vez fui ameaçado de morte na Amazônia, por causa do nosso engajamento com as populações tradicionais, e me foi imposta a escolta armada vinte quatro horas, pensei: “Se eles matarem alguém para me proteger, é por minha culpa e meu pecado, pois Aquele por quem me consagro me ensina a amar meu inimigo e sendo assim, ele (meu inimigo) precisa de vida e vida em abundância”, assinei o termo de compromisso, dizendo que eu rejeitava a segurança e segui missionário, com cautela e prudência, mas livre.

Obrigado por partilhar comigo este momento de leitura orante da Palavra, esta é limitada e colorida com minhas experiências pessoais, porém, o sentimento motivador é reto e busca somente construir uma sociedade sonhada por Jesus de Nazaré. Não se esqueça de que o Espírito do Ressuscitado arde em teu peito: Avance! Seja um promotor da paz!

Por pe. Éder Carvalho Assunção – Missionário da Prelazia de Lábrea no Corno da África [email protected]

1ª Leitura – Lv 19,1-2.17-18

Salmo – Sl 102,1-2.3-4.8.10.12-13 (R.1a.8a)

2ª Leitura – 1Cor 3,16-23

Evangelho – Mt 5,38

 

 

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