01 de Março de 2017

Como rasgar o coração?

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“Concedei-nos, ó Deus todo poderoso, iniciar este dia de jejum o tempo da quaresma, para que a penitência nos fortaleça no combate contra o mal”.

Iniciamos este tempo santo de deserto com uma sede insaciável, com um desejo inquietante de retorno ao primeiro amor, às águas batismais que nos encharcaram de amor e ternura. Somos marcados pela mística do caminho, êxodos e exílios encontram-se em nossa constituição espiritual como memórias de dores e alegrias, derrotas e vitórias, desolações e renovações.

A sede de Deus nos motiva a permanecer ou retomar o caminho iniciado por Abraão, conquistado por Moisés. Esta trajetória de fé encontrou seu apogeu na pessoa de Jesus Cristo – Caminho, Verdade e Vida. O Caminho caminha conosco, ele toca o solo de nossa existência, santifica-o com os rastros de bondade e amizade.

Assim nos debruçamos neste mistério litúrgico que nos envolve em nossa totalidade. Decidimos continuar o caminho no Caminho que é Cristo Jesus, Nosso Senhor. Somente nele encontramos as forças necessárias para superar as tentações que se apresentam ao longo de percurso, somente nele encontramos “o norte” para assim não nos desviarmos por veredas mortais.

“Então o Senhor encheu-se de zelo por sua terra e perdoou seu povo”

Quem sustenta os caminheiros nesta marcha espiritual é o amor compassivo do Pai, que não se cansa de perdoar e acalentar seu povo errante, que por vocação é santo. A consciência desse amor se torna uma pedagogia maternal que inspira o errante e o convida a conversão.

Como rasgar o coração?

Aqui encontramos o primeiro passo para a cura interior, pois tomar a decisão de “rasgar o coração” exige confiança e reconhecimento das próprias fraquezas e fragilidades. O caminho deve ser trilhado na leveza da liberdade, corações endurecidos ou inchados de si mesmo, tornam a viagem dura e sem vida. Quando se caminha nestas condições a beleza do caminho não é contemplada, tudo se torna cinza e amargo.

Neste primeiro dia deste tempo somos convidados a radicalidade: rasgar o coração. O caminho precisa ser contemplado com um novo olhar e ser sentido com um novo coração, e para alcançar esta maturidade espiritual é preciso tomar uma decisão: amar com um coração de pobre, sem as vaidades e as riquezas da indiferença.

Como jejuar?

Jejum, sacrifício e abstinência são marcas quaresmais que nos ajudam a reconhecer Deus como único necessário. Sabemos estas práticas devem ser vivenciadas com um espírito de sabedoria e retidão, pois os farisaísmos e superstições podem torná-las infecundas.

O discípulo que caminha com Cristo tem consciência dos seus “exageros” e o Espírito ajuda-o à discernir quais são os jejuns, sacrifícios e abstinências que são necessários para sua santificação e para o bem da humanidade. É preciso tomar cuidado com as compensações e o efeito avalanche, tudo deve ser discernido na serenidade para assim, ter uma prática fecunda e duradoura.

Saber aceitar as quedas e as frustações dos “projetos espirituais iniciados” é um bom exercício de humildade, onde toma-se a consciência que só Deus é infalível em seus projetos.

Como chorar nossos pecados?

Santo Inácio dizia que existem duas águas que nos salvam: as águas do Batismo e as águas das lágrimas da penitência. Como é importante neste tempo chorar os nossos pecados, se lavar nas lágrimas do arrependimento. Tudo isso é necessário para lembrar que somos “pó”, limitados como todos os elementos da natureza.

Deixemos o Espírito protagonizar em nós nestes dias consagrados uma verdadeira “pororoca memorial”, onde a violência do encontro das águas que desejam se afirmar, nos levem a se entregar ao largo que é Deus em sua serenidade sem igual. Curar o passado sem ressuscitar zumbis é uma boa prática quaresmal, reconhecer os não amores, verificar os falsos perdões, retomar projetos abandonados, construir um novo engajamento missionário.

“Criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo um espírito decidido”

Determinação e ousadia são características indispensáveis àqueles que desejam amadurecer e para isso, a vida espiritual deve ser zelada, cuidada com amor e disciplina.

“Deixai-vos reconciliar com Deus”

A misericórdia é o principal alimento dos caminheiros, sendo assim, o tempero da reconciliação é indispensável. Perdoar é tomar a decisão de amar: o outro, a si mesmo, a criação, Deus… “apesar de tudo”.

Esmola oculta

Onde os passos dos caminheiros tocam o Reino floresce, as injustiças são combatidas. Os bens são partilhados e as violências não são permitidas. Como é importante partilhar, servir os pobres, distribuir os bens e conquistar sorrisos, emprestar os ombros e comer juntos num mesmo prato.

  • Quais são as obras de misericórdia que suportarei?
  • Como serão os sorrisos conquistados?
  • Como será a sensação de ter partilhado um bem material essencial?
  • Como vencer a tentação de despejar o resto, aquilo que não uso mais sobre os pobres?
  • Como será o meu primeiro “beijo no leproso”?

Se estas questões me incomodam é sinal que posso estar longe do bom caminho.

Oração: fecha a porta

Consumidores de produtos religiosos, peregrinos devotos, mídias católicas… isso engorda a economia, mas nem sempre o coração. Peregrinações à Terra Santa, shows religiosos que atraem milhões etc. Tudo isso sem uma vida espiritual fecunda regada no seio da cotidianidade pode se transformar em entretenimento espiritual, que pode ser importante, porém, não satisfaz o desejo de Deus, nem frutifica em abundancia.

Perfuma a cabeça, lave o rosto.

Enfim, tomemos novo ânimo e deixemos a beleza do Espírito nos reinventar neste tempo santo, onde os desembaraços estéticos provocados pelo serviço da caridade se tornaram marca de uma entrega. Contemplemos juntos o Crucificado e Nele depositemos nossa esperança.

Por pe. Éder Carvalho Assunção – Missionário da Prelazia de Lábrea no Corno da África [email protected]

Uma leitura orante

Leituras do Dia

 

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