29 de Abril de 2018

Celebração do 33º Ano do Martírio de Irmã Cleusa

Publicado por

A Paróquia Nossa Senhora de Nazaré – Lábrea, celebrou em sintonia com a Congregação das Irmãs Missionárias Agostinianas Recoletas – MAR, o 33º aniversário do martírio de Irmã Cleusa com uma grandiosa celebração junto ao seu túmulo na Igreja Nossa Senhora de Fátima depois de celebrar um tríduo de oração preparatória.

A data da memória foi preparada com um tríduo de oração nos moldes de Oficio Divino das Comunidades destacando o seu sim generoso, suas virtudes de santidade e o seu martírio, que aconteceu em todas as 13 comunidades da paróquia que se empenharam com dedicação e zelo na realização do mesmo a partir de sua simplicidade e dinamismo dando o melhor para que a testemunho de nossa mártir não se perca em nosso meio.

Outras expressões preparatórias para a memória do martírio se deu através dos programas de rádio da Igreja Católica durante toda a semana com temas de reflexões e recordação da vida de Irmã Cleusa, bem como por suas canções que nos ajudam a rezarmos louvando ao Senhor pela entrega e doação de sua vida, como fez o Mártir dos Mártires Jesus Cristo.

A Escola Estadual Educandário Santa Rita, onde Irmã Cleusa foi pioneira nos trabalhos educacionais como gestora e como professora também realizou o tríduo junto aos professores e alunos daquele estabelecimento de ensino, que todos os anos celebram sua memória.

Neste sábado (28) coroando este tempo de graça que gera muitos frutos espirituais na vida de nosso povo, tivemos na Catedral de Lábrea o início da 33ª Caminhada de Oração em sua homenagem. Irmã Eremita Brites acolheu a todos em nome da Congregação destacando o sentido de celebrarmos hoje o martírio de Irmã Cleusa como forma de não deixarmos calar a luta em favor da vida, da justiça e da paz.

Durante a caminhada refletiu-se o tema: “O testemunho de Irmã Cleusa nos ajuda a superar a violência – Felizes o que promovem a paz” (Mt 5,9). O tema esteva em sintonia com a Campanha da Fraternidade 2018 destacando dados relevantes da violência no Brasil e fatos da vida de Irmã Cleusa que nos ajudam a superar a violência a partir do seu exemplo de mulher pacificadora que fez de sua vida uma missão de paz e nos ensinou a amar todos como irmãos e lutar contra as injustiças e todas as formas de violências.

Ao chegar na Igreja de Fátima o povo de Deus que caminhou foi acolhido pela comunidade que lá já esperava e deu-se continuidade a celebração da Santa Missa presidida por Dom Santiago Sanchez (OAR) que concelebrou com os freis agostinianos: José Garcia Corcuera e Luís Reyes; e os padres diocesanos: Henrique Giera e José Nilson Santos.

Após a comunhão, Dom Santiago aproveitou para agradecer o serviço e contribuição na missão de Lábrea nos últimos dois anos da Irmã Jacira Bering (MAR); bem como para despedi-la da comunidade paroquial uma vez que ela estará deixando a missão por questões de saúde. Irmã Jacira também agradeceu a acolhida do povo e se emocionou ao despedir-se e em partilhar que Irmã Cleusa e a missão de Lábrea tiveram tudo a ver com sua vocação e resposta aos projetos de Deus, e que somente depois de muitos anos pôde conhecer e conviver na terra que Cleusa deu o máximo testemunho de sua fé.

Seguiu-se momentos de homenagens à Irmã Cleusa com uma mensagem da senhora Maria do Bom Conselho que foi sua amiga e amiga de sua família, que lhe guarda com muito carinho em suas recordações. Em seguida, Marcelo Viana que esteve um pouco mais à frente na organização da celebração desse 33º ano do martírio na preparação do tríduo, da caminhada de oração e celebração em memória aproveitou para fazer alguns agradecimentos: a todas as comunidades pela resposta positiva na realização do tríduo; às Irmãs Agostinianas Recoletas pela confiança a ele dispensada nesse trabalho e por darem continuidade ao testemunho de Irmã Cleusa na luta em favor da vida, bem como ao bispo, freis e padres diocesanos; à presença dos irmãos e parentes indígenas das aldeias de nome “Copaíba” e “Irmã Cleusa” que se fizeram presentes com suas vestes, pinturas e cocar; ao coral de crianças e adolescentes da comunidade São Francisco do bairro Vila Falcão que emocionaram com suas vozes entoando os cantos da liturgia e de Irmã Cleusa.

Marcelo destacou que “muitas pessoas admiram Irmã Cleusa pelo seu testemunho de fé até a doação de sua própria vida; outros a respeitam pela mulher ativista que ela foi, de bandeira de luta e destemida em favor dos mais pobres, marginalizados e excluídos; outros ainda, a veneram como santa por seu testemunho e virtudes de santidade, bem como por graças alcançadas por sua intercessão. O importante é que não podemos deixar que se apague a sua memória uma vez que seu sangue derramado continua clamando por paz e justiça quando os indígenas ainda sofrem a omissão dos poderes públicos, as crianças continuam sendo abusadas, os idosos continuam sendo maltratados, os hansenianos ainda são excluídos, os encarcerados continuam submetidos a condições subumanas e etc…”

Para finalizar as homenagens, as crianças e adolescentes do coral entoaram a canção “Esquecida de si” de autoria do Padre José Ricardo Zonta, e após a bênção final passou-se o documentário sobre a vida de Irmã Cleusa produzido pela Verbo Filmes em 2017, além da partilha de uma deliciosa sopa para todos os presentes.

 

33º ANO DA MEMÓRIA DO MARTÍRIO DE IRMÃ CLEUSA (1985-2018)

O TESTEMUNHO DE IRMÃ CLEUSA NOS AJUDA A SUPERAR A VIOLÊNCIA:

FELIZES OS QUE PROMOVEM A PAZ

Por: Marcelo Viana

 

Queridos irmãos e irmãs, no mundo em que vivemos dilacerado e marcado por tanta destruição e guerras somos chamados pela Igreja do Brasil a refletir sobre a fraternidade e superação da violência a fim de abraçarmos essa causa em favor da vida, da justiça e da paz dando testemunho de fraternidade, uma vez que nossa fé e seguimento a Jesus Cristo exige de nós que vivamos todos como irmãos (Mt 23,8).

Neste ano em que celebramos o 33º aniversário do martírio de Irmã Cleusa queremos refletir a partir do testemunho daquela de quem podemos dizer que foi uma serva de Deus fiel e pacificadora porque fez de sua vida uma missão de paz, que em sua trajetória nos ensinou a amar a todos como irmãos e lutar contra as injustiças e todas as formas de violências.

Cleusa Carolina Rody Coelho nasceu numa família católica que lhe ensinou o valores da fé cristã e desde a juventude abraçou o propósito de amar e servir a Deus nos irmãos através da vida religiosa consagrada. Assim, viveu na simplicidade e despojamento das paixões desse mundo, buscando maior intimidade com o Senhor por meio de uma vida de oração e doação pelos prediletos do Pai.

Irmã Cleusa entendia que as desigualdades sociais produziam violência e morte, e sem dúvidas nas suas horas de contemplação diante do Santíssimo rezava e meditava a realidade do povo na presença de Jesus Eucarístico intercedendo pelas muitas situações de dor e sofrimento em que se encontravam. Era o Senhor quem lhe dava forças para enfrentar com coragem os dramas de uma cultura de morte e de violência que já existia desde outrora…

É a partir do testemunho dessa grande mulher martirizada, cuja memória celebramos, que queremos destacar como ela nos ensina a superação da violência que hoje mais do que nunca nos assusta pelo seu crescimento e nos interpela a assumir um novo jeito de ser como reflexo do nosso ser cristão, sendo mais imitadores de Cristo. São muitas as vítimas da violência no Brasil e dentre elas queremos destacar a violência contra: os professores, as crianças e menores de rua, os jovens, os idosos, as mulheres, a religião, os migrantes, os indígenas e outros.

VIOLÊNCIA CONTRA OS PROFESSORES:

Pesquisas do ano de 2013 apontam o Brasil como campeão mundial na violência contra professores, revelando que 12,5% dos professores entrevistados no Brasil disseram ser vítimas de agressões verbais ou de intimidação de alunos pelos menos uma vez por semana. Historicamente há um enorme descaso com os profissionais da educação no Brasil e é necessário lutar por uma maior valorização desses profissionais que são heróis no anonimato de nossa história. Irmã Cleusa foi uma das pioneiras da educação no Educandário Santa Rita em Lábrea (AM) e no Colégio Agostiniano em Vitória (ES), foi gestora e professora apaixonada pela educação em seus propósitos de libertação e transformação do ser. Colegas de trabalho recordam com que docilidade e firmeza ela exercia o magistério carregada de uma autoridade que cativava professores, pais e alunos.

VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇAS E MENORES DE RUA

De acordo com dados de 2017 da UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) o Brasil está em 5º lugar no ranking da violência contra crianças e adolescentes considerando as mais diversas formas de violências sofridas por elas: violência disciplinar e violência doméstica, violência na escola, violência sexual e homicídios. Recordamos que em Manaus (AM) o trabalho de maior expressão de Irmã Cleusa foi junto aos menores de rua vítimas da extrema pobreza que é considerada uma das piores formas de violência que uma criança pode enfrentar. Ela ia ao encontro delas nas ruas e praças e muitas vezes as levava para casa a fim de alimentá-las. Visitava os menores infratores na delegacia e os acolhia em casa para passar as festividades do natal e fim de ano fazendo assim a experiência de sentir-se de fato irmã de cada um deles ouvindo e compreendendo-os. Por sua atitude fraterna com esses marginalizados, passou a não ser bem vista pela polícia que a acusava de ser conivente e protetora dos marginais.

VIOLÊNCIA CONTRA OS JOVENS:

Hoje se fala em extermínio da juventude quando se considera que entre jovens de 15 a 24 anos, os homicídios são a principal causa de morte. Essa triste realidade nos mostra que no ano de 2011, houve em todo o país mais de 52 mil jovens mortos por homicídio (cf. Texto Base CF-2018, n. 80). Irmã Cleusa sempre acreditou na juventude e no seu protagonismo e por isso foi membro da coordenação da Juventude Universitária Católica (JUC), ajudando os jovens com suas orientações a assumirem a vida cristã. Em Manaus Irmã Cleusa conheceu um jovem viciado em drogas e buscou ajudá-lo junto de sua mãe, mas como o ambiente familiar não era favorável à recuperação, com ajuda de amigos conseguiu levar o jovem para Cachoeiro (ES) onde o deixou com uma família que lhe conseguiu emprego. Por conta de sua atitude Irmã Cleusa foi mal interpretada por algumas Irmãs de comunidade às quais respondeu através de carta a superiora: “Que vantagem se tira em afundar o próximo? Será isto Evangelho? Talvez, um modo de atingir a minha pessoa, mas a ofensa é mais grave: Cristo é o ofendido, o marginalizado, perseguido na pessoa do menor, novamente exposto à fome e a outros danos piores! Pode haver quem se alegre com isso, não eu! […] Temos de construir fraternidade, é necessário, mas a justiça tem de estar na base de toda convivência humana”.

VIOLÊNCIA CONTRA OS IDOSOS:

Em todo o mundo, conforme revela a Organização Mundial da Saúde, aproximadamente, uma em cada seis pessoas (16%) com mais de 60 anos de idade já sofreram algum tipo de abuso. O agressor quase sempre é um familiar, notadamente filhos ou cônjuges. A obrigatoriedade da notificação dos maus tratos contra pessoas idosas é recente, mas os números vem se avolumando a cada ano (cf. Texto Base CF-2018, n. 91). Irmã Cleusa tinha um especial cuidado com as pessoas idosas as quais acolhia, abraçava e orientava no processo de suas aposentadorias. Hoje como expressão do cuidado e do carinho que Irmã Cleusa tinha para com os idosos temos em Lábrea um abrigo e um centro de convivência para idosos em sua homenagem.

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER:

Estatísticas de 2013 mostram que foram registrados 4.762 homicídios de mulheres, considerando o aumento de 17,2% em relação as estatísticas entre 2001 e 2011. São 13 homicídios diários em média, levando o Brasil a ocupar o quinto lugar numa lista de 83 países que mais cometem homicídios de mulheres, sendo que em maior número entre as vítimas estão as mulheres negras. O Mapa da Violência de 2014 registra ainda outros números no que se refere a violência doméstica, sexual ou outras formas de agressão (cf. Texto Base CF-2018, n. 83, 84 e 86). Lembramos que o martírio de Irmã Cleusa se deu numa extrema e cruel violência, e segundo exames médicos ela teve o crânio fraturado, costelas quebradas, o braço direito decepado, a coluna vertebral fraturada e no tórax pedaços de chumbo.

VIOLÊNCIA CONTRA A RELIGIÃO:

Segundo estatísticas da antiga Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, o Brasil teve 697 denúncias de intolerância religiosa entre 2011 e 2015 (cf. Texto Base CF-2018, n. 139). É importante ressaltar que quando as pessoas se reúnem em comunidade e na identidade de suas crenças, elas reforçam os laços que as unem e reconhecem-se como irmãos, irmãs e semelhantes. Sendo assim, as religiões podem ser um contraponto positivo frente à onda de morte que toma conta da sociedade (cf. Texto Base CF-2018, n. 135 e 136). Irmã Cleusa foi uma mulher ecumênica que experimentou a fraternidade com irmãos de outros grupos religiosos cristãos e era de admirar o modo delicado e carinhoso com que tratava os irmãos protestantes. Em vitória participava de um grupo ecumênico que se reunia semanalmente e visitava frequentemente os Irmãos de Taizé para partilhar de suas orações e refeições. Irmã Cleusa dizia que o testemunho e oração de uma religiosa fazia muito bem aos católicos e aos protestantes.

VIOLÊNCIA CONTRA OS MIGRANTES

A violência racial no Brasil destaca-se contra as populações: negra, indígena, migrantes e, mais recentemente, também do imigrante. Nos últimos anos os reflexos dessas violências caracterizam-se pelo desrespeito e ódio provenientes do preconceito contra pessoas de origens e culturas diferentes (cf. Texto Base CF-2018, n. 74, 75 e 78). Tal situação nos leva a recordar a atitude de Irmã Cleusa em Vitória (ES) quando visitava os hospitais buscava especialmente os doentes estrangeiros para ajuda-los em suas necessidades levando o conforto de sua presença e palavra amiga, e para tanto aperfeiçoou seus conhecimentos em vários idiomas a fim de melhor auxiliá-los.

VIOLÊNCIA CONTRA OS INDÍGENAS:

Dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) relativos aos assassinatos de indígenas em todo o país no ano de 2016 chegam a 118 óbitos por agressões, negligências e maus tratos. Ainda permanece o quadro de omissão dos poderes públicos, que se negam a respeitar e cumprir a Constituição Federal no que tange à demarcação, proteção e fiscalização das terras indígenas.  Permanece a realidade de agressões às pessoas que lutam por seus legítimos direitos, tais como assassinatos, espancamentos, ameaças de morte (cf. Texto Base CF-2018, n. 106). Desde os tempos mais remotos as relações entre “brancos” e as populações indígenas em nossa região sempre foram caracterizadas pela extrema violência; grupos foram dizimados, expulsos de suas terras e muitas vezes escravizados.

Na década de 80 Irmã Cleusa inicia seu trabalho na Pastoral indigenista, pois era urgente tal missão uma vez que Lábrea estava nessa zona de conflito: acentuava-se a violência e injustiça contra os índios pela invasão de suas terras. Ela sentiu a dor destes seus irmãos, assumiu a sua causa e com sua mansidão foi uma presença pacificadora em suas lutas contra os “brancos” e os poderosos com seus interesses. Destemida, ela acreditava no propósito dessa missão: “comprometer-se com o índio, o mais pobre, desprezado e explorado, é assumir firme a sua caminhada, confiante num futuro certo e que já se vai tornando presente, nas pequenas lutas e vitórias, reconhecimentos dos próprios valores e direitos, busca de união e autodeterminação. Vale arriscar-se!”

Irmã Cleusa foi cruelmente assassinada numa missão de paz em Lábrea-AM no dia 28 de abril de 1985, às margens do rio Paciá, testemunhando sua fé no Deus da paz, da justiça e do amor, semeando concórdia e mansidão em meio a luta do povo indígena apurinã. Coincidentemente seu assassino, Raimundo Podivém, também índio, um ano antes fora encontrado por ela muito doente na aldeia Arapaçú, e dele cuidou e o levou para se recuperar na cidade, tamanho era seu coração que não seria de duvidar que Cleusa perdoou o seu algoz.

O Papa Francisco tem nos alertado que “nos encontramos a braços com uma terrível guerra mundial aos pedaços, que fragmentada de maneiras diferentes e a variados níveis provoca enormes sofrimentos e destruição que somente beneficiam a poucos “senhores da guerra”. Como forma de superação da violência somo todos indispensáveis, devemos nos unir na construção da fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça à luz da Palavra de Deus. Que o sangue e o testemunho de Irmã Cleusa nos inspire a sermos em Cristo promotores da paz pois são felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus.

REFERÊNCIAS:

MAR. Opúsculo Ir. Cleusa Carolina Rody Coelho, 2009

CNBB. Texto Base CF-2018

CIMI. Relatório da Violência contra os Povos Indígenas no Brasil – Dados de 2016

FRANCISCO. Mensagem para o 50º Dia Mundial da Paz, 2017

https://g1.globo.com/educacao/noticia/brasil-e-1-no-ranking-da-violencia-contra-professores-entenda-os-dados-e-o-que-se-sabe-sobre-o-tema.ghtml – Assessado em 06 de março de 2018.

http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2017-11/unicef-violencia-mata-uma-crianca-um-adolescente-cada-7-minutos – Assessado em 06 de março de 2018

 

TEXTO E IMAGENS: Marcelo Viana

Deixe seu comentário

Seu endereço de email não será publicado.requerido

*

* *