Relatório da Expedição – Petrobrás Rio Tapauá

Objetivo da viagem: Manifestar a total desaprovação das Pastorais Sociais da Prelazia de Lábrea, CPT e CIMI, com os trabalhos de prospecção que a Petrobrás está realizando nas margens do rio Tapauá, sobretudo, expressando a preocupação com as comunidades indígenas e ribeirinhas, diante dos riscos dos impactos sociais e ambientais que sempre acompanham os Grandes Projetos de Exploração de Petróleo.

Tripulação:
Cláudia Maria Tomé Wapichanab Missionária do – CIMI de Lábrea
Queops Melo – Coord. CPT da Prelazia de Lábrea
Adevildo Cordeiro (Deca) – Comandante
Antônio Baixinho morador da Foz do Rio Tapauá e Guia
Pe. Éder Carvalho Assunção – Coordenador de Pastoral da Prelazia de Lábrea

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(Regnum Tuum – Embarcação da Prelazia de Lábrea)

Saímos de Lábrea no dia 12 de março de 2014 as 18 horas e 15 minutos , na embarcação Regnum Tuum, descendo o rio Purus e depois subindo o rio Tapauá. Desde a saída até a chegada nas balsas, navegamos cerca de 44 horas seguidas, sem contar o tempo de parada nas comunidades, entre elas a comunidade Deus é Fiel, localizada nas margens do rio Branco , afluente do rio Tapauá e distante das balsas em linha reta aproximadamente 15 quilômetros:

Lá moram seis famílias. Conversamos com algumas delas, entre elas a família da Sra. Neuza Fernandes Vieira (64 anos) esposa do Sr. José Vieira de Souza (70 anos) e líder da comunidade, que no momento da visita estava no plantio de castanha que fez há 10 anos e agora começou a coletar os primeiros frutos. Também conversamos com seu filho Manuel (52 anos). Todas as pessoas se mostraram atenciosas e receptivas. Depois de algum tempo de conversa perguntamos se eles sabiam o motivo de tantas balsas estarem navegando pelo rio e se alguém da Petrobrás havia conversados com eles da comunidade, informando sobre as atividades que estão sendo desenvolvidas nas proximidades. Eles foram categóricos em dizer que ninguém sabia de nada. No entanto, as famílias tomaram a iniciativa de ir, por curiosidade, com um barco da comunidade até às balsas e perguntaram que tipo de atividade estava sendo realizada. Poucas informações foram dadas. No entanto, ficaram admirados com a estrutura que estava montada as margens do rio Tapauá, numa área até então raramente visitada, onde agora várias embarcações formam uma cidadezinha e eles puderam pela primeira vez ver helicópteros tão de perto.

Depois de ouvir e partilhar deixamos a comunidade e seguimos viagem subindo o rio, poucas horas depois, por pouco não tivemos um acidente grave com uma das balsas que estavam descendo o rio, pois as grandes embarcações tornam a navegação perigosa nas muitas curvas do Tapauá. Por volta das 18 horas do dia 15 de março chegamos ao local onde esta montada a base de apoio para a realização de prospecção. Logo na chegada fomos abordados por uma lancha que esta a serviço da Petrobrás, com operários e um segurança que perguntou se nós iríamos continuar subindo o rio, quando ouviram que “ali” era o destino final pediram que pernoitássemos ao lado das balsas. Então, pedimos para conversar com a pessoa responsável pela base e nos levaram até o escritório do Sr. Fernando Pinheiro (gerente dos trabalhos de base da Petrobrás no rio Tapauá), realizamos vários questionamentos e discernimos o seguinte:

As nove balsas nesse momento são somente ponto de apoio para que os helicópteros possam levar os materiais que necessitam para a realização dos trabalhos de construção da sonda (esta fica na Floresta há uma distância de 08 minutos de helicóptero, com outra base de acampamento para os operários que se revezam de 14 em 14 dias, sendo o transporte feito de helicóptero). Confirma-se a existência do poço de petróleo e, no momento estão realizando a perfuração e introdução de sondas para verificar a viabilidade de se montar uma plataforma e toda uma estrutura de escoamento do produto. Fizemos vários outros questionamentos, mas não obtivemos respostas. Então, informamos o nosso posicionamento contrário a esse tipo de projeto na Amazônia, principalmente na Prelazia de Lábrea que abrange os municípios de Pauiní, Lábrea, Canutama e Tapauá. Onde existem várias comunidades ribeirinhas e indígenas que estão muito assustadas com futuro e as mudanças negativas que provavelmente irão ocorrer em consequência desse projeto. Pe. Éder deu o exemplo de grandes projetos implantados na região: desde a colonização passando pelos ciclos da borracha até os grandes projetos do Estado Brasileiro na Amazônia e suas consequências para as populações tradicionais. Depois do café da manhã, despedimo-nos dos funcionários e fizemos a nossa manifestação com faixas no barco, fotos e filmagens, uma embarcação da Petrobrás acompanhava tudo de perto, também registrando.

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(Reunião: Povo Palmari – Aldeia Tera Nova)

Na descida conversamos com moradores das Comunidades Ribeirinhas Sarian e Novo Destino tivemos a oportunidade de visitar a Aldeia Terra Nova dentro da Terra Indígena Palmari e participar da reunião de organização do plano de manejo do pirarucu. Aproveitamos para partilhar o que tínhamos de informação, pois os indígenas estavam assustados com o movimento dentro do rio, inclusive, eles relataram que sem nenhuma permissão colocaram placas de madeira pintadas de amarelo, deixando a comunidade confusa sem saber o que estava acontecendo. Podemos perceber que havia um ambiente de revolta, por estarem entrando na casa deles sem pedirem permissão. Rumo à Lábrea, conversamos com moradores das duas maiores Comunidades da Região: Foz de Tapauá e Belo Monte.

Também achamos uma falta de respeito da PETROBRÁS em entrar na casa das populações tradicionais sem se quer pedir licença. E quando falamos casa, estamos dizendo que para as populações tradicionais a casa deles não é apenas a pequena construção rústica de madeira, mas sim, toda uma área de florestas e rios, que não necessitam de cercas. Enquanto, os que moram nas cidades tem o supermercado e geladeira para armazenar os alimentos estes povos tem a floresta e rios de onde retiram a caça e a pesca para alimentação de suas famílias.

Por isso temos um dos biomas mais preservados do mundo, pois as comunidades tradicionais utilizam os recursos de maneira sustentável e só tiram aquilo que necessitam. Isso é bem visível e notável em toda a nossa viagem.

Por isso, temos a CERTEZA que mais uma vez o GOVERNO, em nome de um progresso totalmente insustentável, coloca a vida das populações tradicionais em risco. No entanto, a saúde de todo o planeta esta em jogo, cada vez que abrimos ou permitimos a abertura de novas chagas/feridas na Mãe Terra.

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(Manifestação – Ponto de Apoio da Petrobrás no Rio Tapauá)

Nesse momento clamamos a comunidade global através de pessoas e movimentos que lutam por um planeta mais humano, onde todos e todas possam viver em harmonia uns com os outros e com a natureza.

Lábrea, 21 de março de 2014