Igreja do Purus e Devoção Popular

Por Pe. Éder Carvalho Assunção – Prelazia de Lábrea

“Muito santo e pouco padre, muita reza e pouca missa”… assim se deu e se dá a evangelização nas margens do Purus na Amazônia. Quando falamos em devoção popular aqui traduzimos como religião do povo que ao longo das gerações criam ritos próprios e uma comunicação simples e direta com o Sagrado. Pra quem chega de fora, formado numa espiritualidade “intelectualizada” fundamentada nas catequeses doutrinárias… se não fizer a experiência da quênosis pastoral, a inculturação vivenciada pelo Cristo na aldeia de Nazaré, dificilmente contemplará a beleza desta espiritualidade de resistência.

Imaginem o sofrimento do êxodo do povo nordestino arrancados de suas terras, enganados pelos coronéis financiados pelo governo que tanto no fim do século XIX como na “guerra da borracha” na década de 40 transportaram na marra de uma ilusão de dinheiro fácil nas paragens amazônicas ante toda dificuldade de sobrevivência no sertão nordestino. Enfurnados em navios, os nordestinos, na maioria, homens jovens… que de lá partiram pra nunca mais voltar. É comovente conversar com esses nordestinos que vivem no Purus, chamados de “arigós”, e ver a nostalgia daqueles que cantam com a vida uma interminável canção do exílio.

O sistema de aviamento, que na verdade não passava de uma escravidão legalizada, condenou o sonho nordestino de uma vida melhor… e aqui se tornou um sofredor seringueiro nas mãos dos coronéis de barranco que por ironia do destino ainda são homenageados.

Do nordeste brasileiro ao sertão amazônida com as inúmeras pragas… com covarde matança dos povos indígenas… com a perca da identidade cultural… com a desumanização causada pelo sistema que só enriqueceu os coronéis de barranco.

Porém, na bagagem do nordestino vieram os santos… de madeira… de gesso… quadros… terços… veio a fé simples do povo que sabe falar fácil com Deus… sem complicação e protocolo. Padre era artigo de luxo… lá uma vez outra na desobriga… no casamento pelo rumo… no batizado… nos festejos… e até aqui o arigó sofria… pois o “serviço” do padre era pago pelo patrão… pelo coronel… pelo barracão… e depois “tome” estrada de seringa pra pagar ao patrão que até o sacramentos aviavam… era cruel… assim… nos tapiris… a vela acessa… o quadro da Virgem… ou dos santos… impulsionados pelos terços… novenas e as ladainhas em latim numa tradução única do povo simples…

No período da lepra… da hanseníase… o Purus foi tido por alguns como capital mundial da “Lepra”… restava recorrer aos Santos… São Sebastião… com suas feridas das flechadas… São Francisco das Chagas… com seus estigmas milagrosos… e até mesmo uma parábola de Jesus… tornou-se “gente de verdade” o Lázaro ferido lambido pelos cachorros. Abandonados na selva… na dor da exclusão… em porto com hanseniano… nem o regatão parava… a família era obrigada a segregar o hansenianos num tapiri na costa da praia… no meio da mata… quem tinha condições mandava pro leprosário na capital… e até mesmo existiram casos extremos… famílias que improvisavam uma balsa… e empurrava a criança hanseniana pro meio do rio… quem tivesse coração acolhia na praia abaixo… assim conheci pessoas que viveram esta experiência. O que fazer… recorrer aos santos. Hoje se entender o porque do carinho com a imagem… com o quadro… a fita amarrada… a procissão… os fogos… o beijo no santo… a conversa sincera diante da devoção… muitos são os testemunhos das pessoas que foram “validas” pelos seus santos de devoção.

São Raimundo Nonato e Nossa Senhora do Bom Parto se encarregavam das parturientes… assim… as Marias… os Raimundos e Raimundas….se multiplicam no Purus… sem contar que todos gêmeos são batizados como Cosme e Damião… Cosma e Damiana.

Nada se compara a maior devoção… São Francisco das Chagas… nostalgia do Canindé. Os benditos… se multiplicam… as procissões pipocam em todos os cantos… o povo demonstra uma devoção fascinante. Sempre vi a devoção a Virgem em primeiro lugar… no Purus São Francisco das Chagas é a maior devoção… sem dúvida nenhuma.

Fogueiras de Santo Antônio, São João e São Pedro… iluminam o mês de junho e Santa Luzia é oftamologista celeste do povo simples… enfim… muitos outros santos são lembrados…inclusive “meu padim padre Cícero”.

Até hoje muitas comunidades tem missa uma vez por ano… visitei comunidades que nunca tinham visto um padre pisar no chão da colocação… comunidades que há 100 anos viviam a fé sem presença de ministros ordenados na colocação… comunidades que há 20 e 5 anos não tinham missa… enfim são muitas histórias… porém em nenhuma delas o Espírito deixou de ser fazer presente na rezadeiras, no puxador de terço, na parteira devota, nos festejos de fé, nas procissões… nas rezas pra todos os tipos de males e na pajelança… fruto da comunhão das culturas indígenas e ribeirinhas… em muitas dessas comunidades vi a vivência eucarística antes de rezar a missa, na partilha da vida, no peixe comungado, na chegada da caçada onde ninguém na colocação fica sem o pedaço de carne… em pessoas que remaram dias pra levar pessoas doentes pra cidades… em homens que carregaram companheiros mordidos de cobras por mais de dias pelos varadouros pelo meio da mata… por pessoas que foram até o meio do rio pegar a criança hanseniana pra criar como filho… e assim também contraiu a hanseníase… confesso que contemplo tudo isso como um experiência mística única.

É duro ouvir alguém criticar a fé do povo… ridicularizar… infantilizar… dizer que não serve pra nada… é triste ver missionários que não se tornam povo… apenas funcionários do sagrado… quando não turistas religiosos… a fé simples é patrimônio cultural do povo do Purus… que Deus através de seus santos… continue socorrendo seu povo… que continua com “muito santo e pouco padre… muita reza e pouca missa”… porém com uma vivência eucarística que envergonha muitas comunidades que tem missa todos os dias… porém… não se amam… não partilham e não param de dar volta ao redor do próprio umbigo… que a fé simples do povo simples nos faça simples e dignos de pertencer a este povo simples, pois “gente simples, fazendo coisas simples, em lugares não muitos importantes realizam transformações extraordinárias” (Provérbio africano).

Pe. Éder Carvalho Assunção

Presbítero Missionário Prelazia de Lábrea

[email protected]